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  • Ana Teresa Santos

Amor, sonhos e molho agridoce

Sou filha de pais separados.


Acho que isso pode ser uma ótima introdução para dizer tudo e nada.

Sim e então? Sou eu e talvez metade da população portuguesa que desde o 25 de abril, se o arroz não está bem arrumado ou o canal de televisão não é o mesmo escolhido pelos dois já estamos mesmo a ver que “a coisa não vai funcionar”.


Vivo numa geração que prefere escarrapachar amor por todo o lado. Fá-lo notar-se e desaparece logo a seguir com a primeira adversidade. Os homens não têm capacidade de controlo e as mulheres, que graças a Deus conquistaram a independência, aproveitam-se dela para meter “as malas à porta” porque “de onde vem aquele, podem vir muitos mais e não estamos para isto”.


Na maioria das vezes atualmente desistimos até antes de tentarmos. Que trabalheira que seria, e se eu sair mal, como é? Para quê?


Sexo descartável e amores improvisados são as soluções, isto, porque ainda não inventámos nenhuma aplicação informática que nos retire a necessidade da existência destes dois fatores no nosso quotidiano.


Sou filha de pais separados sim, mas nunca em tempo algum estes deixaram de me mostrar o que era o amor-puro. Talvez por se terem amado tanto no pico da idade e da juventude, fizeram-me de amor.


Foram metades desiguais que se desencontraram mas que na sua junção se encaixavam na perfeição.


Sabem? O pai porreiro e podre de giro que deixava todas as miúdas loucas, com a mãe elegante e sempre com uma personalidade fortíssima, estão a ver o género?

Eu sou a mistura de duas partes distintas que se camuflaram e formaram uma igualdade fantástica enquanto equipa.


Imagino-os na minha cabeça como uma “dream-team” pelo menos da educação, de saber-estar e de diversão. O que resta de mais importante que não isso?

É por eles que acredito no amor, ainda que se tenham deixado de amar, fantástico, ou não?


Foram amor até o deixarem de ser. Foram felizes todos os dias e todas as noites em que se encontravam um ao outro dentro das tão diferentes personalidades que cada um tinha.


Pelo que me contam, fui feita de um amor agri-doce que no seu teor teve toda a paixão que alguma relação entre duas pessoas pode ter. Amor de miúdos, miúdos que cresceram, que se fizeram seres capazes e que no final se desmembraram sem não antes deixarem a sua marca.


Saiu um terror é verdade. Uma miúda a quem ninguém consegue explicar que não se salva o mundo através da escrita. Uma pirralha alegre que mete todos os dias na cabeça que temos 50h se for preciso para fazermos de tudo por aqueles de quem gostamos e tudo aquilo a que nos propomos.


Como eu costumo dizer, saiu-lhes uma bolinha contente que adora a vida só pelo luxo de poder vivê-la.


Levo tudo ao limite, desde a esperança à crença exacerbada de que tudo vai sempre correr bem. Posso estar a viver num inferno aos olhos dos outros em determinado momento, mas a minha cabeça transforma aquele cenário num paraíso florestal imediatamente.


Todos temos problemas, todos temos dias maus, mas há sempre quem os tenha pior que nós e é nisso que temos de nos focar.


Sou uma privilegiada. Vivo numa Europa civilizada, posso estudar, formar-me e caso a coisa “dê para o torto”, o nosso país no seguimento de me mandar emigrar, ainda me apresenta os meios para o fazer.


Todos nós temos as canas para a felicidade, porquê então deixar de pescá-la, pelo medo de enfrentar altos mares?


Tudo bem que todo este positivismo se deve ao facto de ser efetivamente uma pessoa feliz. Só me sinto bem em paz e os meus melhores amigos são na sua grande maioria homens que mal me vêm com um pé a tentar voar, me fazem aterrar no chão escaqueirada com o pouco rabo que tenho.


Mas caramba, nós mulheres não temos do que nos queixar. Não temos nada a perder e somos fantásticas só por pertencermos a esta raça. Cada uma de nós é tão própria, tão singular, tão a junção de tudo aquilo que nos rodeia, que cada dia nos torna seres únicos.


Comecemos só a ver a felicidade nas pequenas coisas. Desde a mesa do café na praça rodeada da “nossa” gente, à série ao final da noite que nos faz chorar baba e ranho porque o casal protagonista acaba junto no final, embora seja essa a parte mais previsível desde o primeiro episódio.


Deixemo-nos de ter esta constante necessidade de afirmação desproporcional. Não temos de provar nada a ninguém, muito menos mais do que aquilo que devemos provar a nós mesmos.


Somos seres capazes. Alguns com mais, outros com menos limitações, mas todos nós conseguimos alcançar o final do jogo com sucesso, mais que não seja por já termos participado nele.


Brindemos mais no fim da noite aos nossos e se a garrafa acabar e o livro tiver de se fechar, então que o façamos com a certeza de que não deixámos nenhuma página em branco.


Esta é a nossa história, o nosso momento.


Podemos escrevê-la de todas as maneiras, mas a melhor de todas será sempre quando coberta de amor desmedido e cheia de noite mal dormidas.


Afinal, nenhuma história é feita de sonhos, exceto aquelas que construímos acordados.

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UM DIA NA TERRA de Ana Teresa Santos

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