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  • Ana Teresa Santos

Amores Carnavalescos

Sempre fui muito céptica quanto ao Carnaval.


Quase tanto quanto com o amor fingido, o amor dissimulado, aquele que existe só por existir. Onde os corpos não sentem, a alma não sorri e a pele já não mais se arrepia.

Amores daqueles bonitos nas fotografias e distorcidos no coração.


Amores de Carnaval que brilham para os outros, deslumbram os demais, mas que só quem está dentro sabe o quanto custam.


No Carnaval é muito agradável ver em todos os cortejos a sátira politica, desportiva e social. Lançamos imensas gargalhadas com o que ali assistimos, como se não se tratasse da nossa própria realidade nacional.


A verdade é que nem nós imaginamos o que está por detrás de todos os disfarces e tal como acontece com o amor, quando a máscara cai é que conseguimos traçar o que por ali se passou.


O dia do namoro, tal como o dia de Carnaval tem um único significado: falso e artificial.

Somos o que gostaríamos de ser pelo Carnaval e apanhamos o balanço para festejarmos o dia do amor, como se este também não se tratasse de uma tormenta.

Pintamos o dia de cor-de-rosa, afloramo-lo com corações vermelhos e gastamos dinheiro em jantares caros e roupas bonitas.


Estes dias só me fazem lembrar aquelas famílias que em algum momento da vida já todos nós conhecemos. Constituídas por um agregado que se veste com grandes marcas, conduz excelentes carros e vive em enormes mansões. O pior vem depois, quando utilizam o fato da transparência, da realidade e do seu próprio ser. Ai, por vezes, são mais pobres do que qualquer mendigo e na maioria dos casos pesa-lhes (ou deveria pesar) a consciência, afinal não existe dinheiro nem luxo nenhum gratuito.

São seres cheios de pessoas e solitários deles mesmo.


Não sou nenhum coração de pedra, atenção! Enganam-se aqueles que pensam que sou uma ressabiada sem coração. Sou realista. Sou apenas apologista do amor de todos os dias, do amor que celebra a vida com o carinho de o fazer, do amor que partilha, integra, seduz. Sou defensora do dia do amor durante todos os dias das nossas vidas.


Amor ao que fazemos, amor ao que visitamos, amor aos nossos e aos outros. Amor por sentir, amor por dar, amor que não pensa no que recebe porque só está focado no que de si oferece.


Não pode ser apenas coincidência o dia de Carnaval ser tão próximo do “dia dos namorados”. Aproveitamos a máscara, agarramos nas maquilhagens e nos disfarces e ali vamos nós, cheios de plásticos brilhantes e exibicionismo incorporado.


E vivemos assim o dia que deveria ser o mais importante de todos os dias. O dia em que celebramos o amor.

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UM DIA NA TERRA de Ana Teresa Santos

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