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  • Ana Teresa Santos

As mil e uma cartas que eu (ainda) não te escrevi, mamã

Tenho todos os dias a maior sorte do mundo e nós sabemos disso.


Cresci num ambiente de total equilíbrio entre o amor e a paz. Sou feliz todos os dias enquanto vivo e faço sempre questão de o ser enquanto filosofia de vida que adoto.

Conto com tantos sonhos quanto sorrisos leves para oferecer, e sabes? A ti te o devo.

A ti e a toda a educação que sempre fizeste questão de me dar, aleada claro, a um enorme amor, carinho e uma tão grande paixão pela vida que nada melhor sei fazer senão viver.


Deixaste por cá todas as cartas que te escrevi, aquelas que colecionávamos juntas no dossier de capa grossa por tantas que já se acumulavam, lembras-te?


Nele guardaste com todo o cuidado cada traço que pus em papéis. Desde os desenhos terríveis aos meus textos que tu vangloriavas por terem ganho primeiros lugares, ainda que eu tenha ideia de que isso só tenha acontecido por terem sido partilhados no colégio espanhol.


Mas mais do que às cartas que te escrevi, deixaste-te a ti, minha mãe.


Ficaste-me em cada virar de esquina, em cada abraço mais apertado ou em cada emoção mais forte por que passe. Ficaste-me na alma, levaste-me tão grande parte do coração.


Partiste sem dizer adeus, porque na verdade, sabes que nunca haveria um adeus disponível para nenhuma ocasião que nos separasse.


Nunca houve viagem nenhuma que não me aproximasse da tua alegria, exceto esta que fizeste para o outro lado do mundo e de onde não mais voltaste.


Mas eu estou bem, meu amor. Eu estou bem porque sei que é exatamente assim que gostarias que estivesse.


Tenho os meus objetivos delineados e sei que irei conseguir atingi-los, porque, tal como sempre me disseste e obrigaste a repetir tantas vezes “do querer ao conseguir, basta querer”. E eu quero tanto, Quero tanto honrar-te da melhor maneira que conseguir.

Quero tanto manter o papel da tua miúda que anda sempre com a cabeça na lua mas que sabe o quanto custa ter os pés em terra.


Quero tanto manter os valores de mulher que tão bem me transmitias todos os dias. E quero tanto mamã, mas tanto, que sorrias tanto quanto sorrio de todas as vezes que me lembro de ti.


Sei que não partiste para parte nenhuma que fique longe e sei sobretudo que sempre estarás por perto para me amparares cada queda desastrosa ou cada gargalhada mais estridente que eu acidentalmente der.


Tinha o mundo para te oferecer mas sei que ainda vou a tempo para te o proporcionar.

Fizeste-me de afetos e graças a ti sei que sou uma pessoa cheia de momentos bons num mundo de gente “mais ou menos”.


Devo-te tanto que tudo nunca seria o suficiente.


Imortalizar-te-ei sempre com o mesmo cuidado que guardaste cada esboço meu.

Um dia darás o meu melhor livro, até lá, és a minha melhor memória de cada dia.


Amo-te tanto, muitos parabéns, mamã.

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UM DIA NA TERRA de Ana Teresa Santos

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