UM DIA NA TERRA de Ana Teresa Santos

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  • Ana Teresa Santos

Até sempre, Nicolau Breyner

Todos os dias acordo com mais uma.


Começo a achar que todos os dias a vida me manda mais uma prova do género “toma lá mais esta e vê se te avias”.


E eu tenho-me sempre aviado, desviado, esquivado.


“Eu” portuguesa, “Eu” estudante cheia de sonhos, objetivos e futuros incertos. “Eu” ser humano num Portugal tão diferente da realidade em que todos já o conhecemos e que não mais voltará a existir. “Eu” persona que diariamente tem de lidar com perdas incontornáveis, como quem perde um autocarro que passará daí a 5 minutos.


As portas para os jovens já nascem encerradas a 7 chaves, é assim que tenho de delinear o meu futuro. Inócuo de esperanças e escondido atrás de três voltas de fechaduras de ferro. É disso que é feito o meu dia seguinte.


Nós, os jovens, os “miúdos”, somos perseguidos por janelas de guilhotina. E não, nós não somos a geração à rasca, nos somos a geração que só tem o rasca para se (des)enrascar.

“Não podes ser só bom, tens de ser o melhor”. Ser a melhor para com grande mérito e primazia ir para o meu ponto de partida- O olho da rua, as filas de espera do Centro de Emprego ou o balcão do café do tio que até é porreiro e me arranja uns “biscates”.


Vivemos em pontos de partida que não arrancam, porque não nos deixam arrancar.


Mesmo que sejamos bons, multifacetados, prontos e interativos não chega porque “não há meios”, “não há fundos”, “não há espaço para novas contratações” e todos lamentam e ninguém nada mais faz senão lamentar.


E agora mais uma vez vivemos mais uma perda, uma pessoa Enorme, um Gigante. Um Ser Humano que caçou tanto talento em vida que se tornou imortal após a morte.

Nunca a vida deste teria de passar por encontrar novas caras, novos jovens, novas fibras, mas durante todo o tempo que por cá passou (e tão bem que o fez e tão bem que sempre viveu) deu oportunidades e estendeu não as mãos, mas braços completos.

Ensinou os melhores, batalhou pelos não tão bons e nunca em tempo algum desistiu de alguém.

Diz-se ter sido uma pessoa de grandes paixões, grandes momentos e ainda dum maior coração. Eu que já acredito em tão pouco, acredito tanto nisso mesmo.


Que perda. Que aflitivo. Que fugaz que é a vida para quem nunca deveria deixar de viver.


Até sempre Nicolau Breyner, obrigada por ter sido tão culturalmente enriquecedor. Por ter passado pela minha infância, adolescência e início de vida adulta.


Houvessem mais braços estendidos pela terra como o seu em todas as áreas profissionais, seria este mundo um sítio tão mais feliz.

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