UM DIA NA TERRA de Ana Teresa Santos

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Autobiografia de um ser em ebulição

Não foram poucas as vezes que comecei a escrever e voltei atrás naquilo que a minha cabeça me ditára.


São tantas as coisas que tenho visto com que não estou de acordo e tantas outras que me fazem renascer, que chego a tropeçar nas minhas palavras e a perder-me na linha do meu próprio raciocínio.


Enquanto por um lado sinto uma gratidão imensa e um enorme reconhecimento perante os nossos bombeiros, pelo quanto se entregam em prol do nosso pais, por outro, vejo pessoas a partilharem fotografias a preto e branco em redes sociais com a descrição “Desafio aceito”, como se alguma coisa também estivessem a salvar.


Nas primeiras descrições que vi assim, sempre imaginei ser um daqueles jogos entre mulheres, onde conjugamos frases e tópicos em função do nosso estado-de-espírito, para que os homens não percebam o estado civil em que nos encontramos. Mas, depois, pior que isso que já me parece ser um jogo de gente com pouco para fazer, apercebo-me que o propósito dessas mesmas partilhas é de “ajudar na luta contra o cancro”.


Posto isto só vejo duas explicações possíveis: Ou apanhou tudo muito sol este verão, ou sofremos todos com uma febre tal de redes-sociais que já nem conseguimos ativar o lógico e o racional e funcionamos à base do “like” e da partilha.


Nesta onda de interatividade em que entrámos, mostrar o quão felizes somos, é quase mais importante do que o sermos na realidade. Vale tudo.


Vale postar desde o animal que nos foi oferecido e -vejam lá- que até é da raça da moda, até achar que uma fotografia em qualquer que seja a sua tonalidade pode, de alguma forma, mudar o mundo.


Repulsa-me que seja tão fulcral dizermos que estivemos nas discotecas da moda- sempre com referência à zona VIP- onde tudo se passa do mesmo modo; A música é exatamente a mesma e as únicas duas diferenças são, talvez, o engate que se faz por “você” e as bebidas que são (ainda) mais caras.


Os elogios tornaram-se cada dia mais fáceis, ao passo de que as distâncias se mantêm mais severas e cada um de nós contribui ativamente para este avançar a passos largos de vaidades dissimuladas.


A verdade é que ninguém está feliz em todos os momentos, ninguém sai à rua pronto para pousar numa qualquer capa de revista, e melhor, mais do que nos interessarmos pelas nossas vidas para as enriquecermos e estimularmos, estamos a torná-las bonitas para os outros.


Que poderá isso trazer-nos de bom?


Eu também sou dessas pessoas- destas pessoas.


Também vou às discotecas da moda, também tiro fotografias e em cada uma delas procuro mostrar o quão de “bem com a vida” estou – Sou só mais uma das pessoas que está errada. Ou pelo menos uma pessoa que tem a certeza absoluta de que a melhor fotografia está guardada na memória RAM do coração.


Afinal, quantas vezes tivemos a sensação de que o bonito que nos rodeia é traspassável para o papel?


Somos momentos. Somos gargalhadas. Somos abraços e desejos húmidos de alegria e de emoção e nunca nenhuma dessas essências do nosso ser será tão bonita para os outros como deverá ser para nós.


Porque a vida é isso mesmo e é sem esboços que ganha uma enorme e valiosa cor.

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