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  • Ana Teresa Santos

Este não é um texto de amor qualquer

Sou da geração dos vinte’s.


Aquela que está desacreditada em tudo. Aos olhos do mundo e aos olhos em que vemos o mundo.


Sou da geração do “deixa andar” porque por mais que ande não vai parar a lado nenhum.


Já não sonhamos com medo de cair no chão de rabo escaqueirado e com medo que o desconhecido nos atormente.


Somos a geração do desapego, do desprezo, do desrespeito, porque é isso que nos transforma nos “maiores da nossa aldeia”.


Burrice nossa. Ou talvez não. Talvez já tenhamos de lidar com tantos “pensa rápido” que simplesmente já não mais nos apetece pensar.


É preferível não viver do que qualquer dia voltar a viver mal, e é assim que vamos deixando que os dias passem por nós sem que lhes sintamos o sabor. É assim que deixamos que o sol se misture com as noites gélidas e é nelas então que nos perdemos entre excessos e copos e bebedeiras e amigos. Porque só ai realmente nos sentimos confortáveis para nos encontrarmos.


Já não arriscamos.


Para quê? assim também estamos bem e entre uma noite e outra lá nos perdemos. E enquanto me perco não me encontro com a minha realidade.


Já não amamos porque não nos deixamos amar. Adoramos as coisas mas apenas até ao limite que lhes colocamos. Não sentimos a essência de nada, porque nada mais nos dá o conforto que a safe-zone nos proporciona.


Já não nos permitimos dar possíveis quedas e as únicas cambalhotas que eventualmente daremos são em camas alheias, que no final das contas não lhes conhecemos nem o nome nem o cheiro. Tratamo-nos como se fossemos um restaurante de fast food, mas neste caso, humano.


Já não há amor como d’antes, aquele que troca as cartas com os celos mais bonitos, que partilha carinho e amor e sobretudo que mantêm o respeito. As pessoas multiplicam-se entre elas e na primeira oportunidade despem-se dos valores que lhe foram intrínsecos e justificam-se com o injustificável.


O sorriso já não é o mesmo e constantemente, ainda que artificial, se multiplica para um número maior de pessoas. Queremos ser os campeões do nosso bairro sempre na esperança de comandarmos as nossas emoções.


A minha geração perdeu o amor-próprio e com ele o amor em amar.


Vivemos de “likes” and “Dislikes”, vivemos de redes sociais que promovem encontros rápidos e com um único propósito. Despimo-nos de nós para nos entregarmos a uma outra pele que não conhecemos a cor, nem a textura e em tempo algum teremos oportunidade de lhe conhecer os contornos, nem queremos, porque já não nos alimentamos disso.


Substituímo-nos uns aos outros como se vivêssemos num jogo de tabuleiro. As pessoas não são gente, são números, têm medidas e nada mais importa senão a facilidade com que lhes conseguimos aceder.


É contra-natura amar na geração dos vinte’s, é quase como um barco a lutar contra a maré, tenta, mas não vence. Porque ninguém acredita e todas as nossas esperanças em acreditar também se foram perdendo pelas tormentas óbvias pelo qual qualquer relacionamento tem de passar.


Amar deixou de fazer sentido a partir do momento em que perdemos a vontade de acreditar.


E o mais triste de tudo isto é que todos nós nos esquecermos que os finais felizes são feitos pelos mais corajosos marinheiros da alma, aqueles que gostam de cruzar o mar bravo. O mar que tem forma, o mar que tem cheiro, o mar que me vai salpicar tanto a cara e que por isso sempre me marcará o coração.


Somos só uns cobardolas tão cheios de nós que metemos na cabeça que somos bons de mais para sermos partilhados.


Nós, Os vinte’s, somos atualmente só uma espécie de revolucionários da banheira com ideais independentes.

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UM DIA NA TERRA de Ana Teresa Santos

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