• Ana Teresa Santos

Ontem estive de mãos dadas com a morte

Ao fim de sete anos procurei pela primeira vez, a minha mãe, por todo o cemitério, até que encontrei o local que lhe foi atribuído naquele dia gélido de dezembro.


Nunca falei muito acerca disto, perdi a minha mãe “sem, mas nem porquês”, ela trabalhava do outro lado do mundo, já regressou em cinzas. A partir daí coube-nos renascer, quase como uma Fénix, dentro dos timings e o choque que isso nos provocou.

Quanto a mim escudei-me no trabalho, na escrita, nos sonhos que lhe prometi, na vida acelerada que me forcei a ter e nos amigos que colecionei e me amparam, quando a força falha e pareço um elemento circense em queda livre desamparada.

Em minha defesa, confesso a cobardia de procurar somente agora pelo seu nome, fi-lo para evitar maior dor, mas nunca a imaginei ali, num lugar tão sombrio, cinzento, silencioso, sobretudo, porque a minha mãe é festa, vivacidade, alegria, colo, música e energia.

Assim que a “encontrei” tive a certeza de que o nosso lugar não era aquele, ainda assim, escrevi-lhe uma carta a dar-lhe novidades (que estou certa de que já sabia), abracei-a com a força de sempre, e assim que pousei as Margaridas que lhe levei, automaticamente todas se viraram do avesso. Sei que não me queria lá, nunca foi ali que nos cruzámos, porque seria agora? O nosso lugar é o Mar, A Montanha, o Algarve e o Alentejo, é o Guincho e a Serra de Sintra, são pistas de dança e amigos que se tornaram família, a minha mãe será sempre vida enquanto eu viver, e quem vive fá-lo por gosto, fá-lo com garra e alegria.

As nossas palavras serão para sempre trocadas nos meus sonos mais profundos, nas minhas vitórias e em cada momento em que eu sinto que “consegui”, afinal, ela sabe que é por ela que eu “tentei”.


Os nomes de quem mais amamos não são para ser lidos em lápides com frases feitas e desbotadas, são para ser honrados no dia-a-dia, para ser relembrados em todos os rankings onde cheguemos, para ser comemorados em jantares e noites de copos em que brindemos a quem nos traz alegria. Ontem abracei a morte, mas ela mostrou-me que eu tinha de ir viver a vida.


Assim que terminámos a nossa conversa, retoquei o batom com a mesma convicção com que voltei a meter a alma no lugar e segui o meu caminho: Fui ao lançamento do livro da minha avó, que com oitenta e sete anos, surgiu plena, segura e com a certeza de que iria desfrutar de cada momento daquele seu dia, eu estava perante a realidade de quem sabe, de quem sofre, mas de quem tem a consciência absoluta de que a vida é para ser vivida.


Ontem? ontem dei muitos abraços sinceros, alguns até amargurados e fiz tudo com toda a minha alma e o meu coração, estive presente com alegria e muita vontade, mas tive, também, a certeza de que a saudade nunca estará num sítio só.






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