• Ana Teresa Santos

Gostaremos para sempre de música brasileira, não é?

A minha mãe dançava ao som do "Amor de Julieta e Romeu", que na verdade era mesmo igualzinho ao "meu e o seu". Gostava de Caetano Veloso, no fim dos dias mais gélidos, e foi quem me ensinou que a nossa energia se adapta conforme a melodia.

Tínhamos sempre a casa cheia, muito embora não a recorde como "mestre da culinária", aprendeu a fazer os nossos pratos favoritos como ninguém e quando se tratava de convívios a receita era simples: pedia a cada um que trouxesse o que conseguisse, só não podia faltar alegria. Na mesa havia sempre pão, sopa, vinho, amor e uma boa dose de gargalhadas, não dávamos nada como garantido, mas sabíamos que se estivéssemos juntas, dificilmente alguma coisa faltaria.

A minha mãe não era perfeita, atenção!, Mestre do drama, do romantismo e dos sonhos que um dia ainda se concretizarão, mas uma coisa é certa: Criou três filhos destemidos, determinados e fortes, possivelmente graças "À Maria", a assustadora colher de pau que de vez em quando tinha na mão "ANA TERESA DA GAMA, VOLTASTE A COMER MAIS CHOCOLATES ANTES DE JANTAR?".

Francamente acho que ela não criou três Seres, criou três pessoas "todo-o-terreno", somos diferentes em praticamente tudo, mas quando precisamos uns dos outros, saiam da frente, temo que encarnemos na maldita colher- dura e maciça.

A minha mãe não era só especial, isso torna-se redutor, considero-a frágil como uma flor mas feroz como um lince, foi dedicada e elegante em todas as suas missões. Era quase como a minha luz, a luz que me guiava o caminho, mesmo que esse fosse em direção a um túnel longínquo e, aparentemente, sem sentido, eu seguia-a, sem hesitar. Agora? agora é saudade, é beleza e simplicidade. A minha mãe é amor, perdão e vazio.

Este é um novo mundo que quando comecei a explorar era silencioso, oco, vasto e confuso, mas que agora, mais do que nunca, tenho um motivo para conquistar e por quem honrar.




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