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  • Ana Teresa Santos

Há vida para além de viver.

Tenho visitado com mais frequência o centro de Lisboa.


O centro que renasceu, que se ergueu e que fala agora num tom mais “nasalado” que o costume.


Passo algum tempo naquele largo onde Joana Vasconcelos tem uma belíssima obra- o Largo do Intendente. Dizem os mais entendidos na matéria que, “aquilo já não é o que era”.


Conhecidíssimo por ser um lugar de prostituição fácil, o largo é agora frequentado por pessoas super “In” e que gostam de pedir bicas por “você”.


Naquelas ruas, tudo o que por lá se passou é difícil de imaginar. Evitável será talvez o termo.


No rosto de cada um dos moradores mais antigos, vê-se delineado uma luta constante pelo “pão de cada dia.”


Cada forma é legitima de fazer dinheiro e são poucos os meios que não justificam os fins.


As mulheres, essas, defendem-se entre elas com uma frieza encapuçada. Quanto aos homens do bairro, os que não se “portam bem”, pouco por lá se mantêm.


Por lá há uma pessoa que me marcou especialmente. Entre tantas outras que todos os dias ali passam, conheci aquela mulher, tão bonita. Tão feliz, tão segura. Todos os dias faz questão de me (re)lembrar o quão bonita é a vida e a dádiva que é todos os dias a vivermos.


Nem sempre tem possibilidades sequer para comer. A vida não lhe tem dado tréguas e mesmo assim ela é tão amiga de viver.


Cabo-Verdiana de origem, este ser cheio de luz que irradia qualquer um que por ela passe, veio para Portugal em busca de ajuda médica.


Com duas patologias duras, largou o seu filho e veio à luta. Não contava com o fim do dinheiro, não contava com tantas portas fechadas.


Professora de línguas na sua terra-mãe, prostituta na nossa terra. Veio por si, veio para se salvar e poder voltar sã e salva para junto dos seus.

O regresso ainda não está previsto, e transparece no seu olhar a vergonha que tem daquilo que faz, mas nem assim, nem assim mandou a toalha ao chão e parou de lutar.

Esta é só mais uma história das paredes daquele espaço. Casas cheias, corações tão vazios e partidos em pedaços desiguais.


Entre os “Fashion Victim” que por lá agora passam, vêm-se várias mãos estendidas de desespero por um dia melhor.


Mas nem desse modo perdem a vontade em tempo algum de todos os dias acordar.

Lisboa é um sitio tão bonito quando lido nas entrelinhas.


Nesta cidade vê-se vida em cada âncora de sonhar.

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UM DIA NA TERRA de Ana Teresa Santos

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