UM DIA NA TERRA de Ana Teresa Santos

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Meu querido Pai

Pouco escrevo acerca do meu pai porque tenho um medo tremendo de o desiludir. Quando temos alguém por quem nutrimos um enorme respeito, o medo de falhar é proporcionalmente igual.


Enquanto figura paterna, reconheço que faz pouco o papel educacional, na medida em que sempre teve mais jeito para deseducar, ensinar-me a ver o lado gozão da vida e a rir-me das coisas menos boas. Mais do que qualquer outra coisa, é, sem dúvida, a pessoa que mais me faz olhar amplamente para tudo com o propósito de crescer.


É farmacêutico e essa é uma profissão de missão. Nunca desliga o telemóvel. A “fixa” ou a memória. Lembro-me desde sempre dele me levar pela mão, em passo apressado, e a pasta com os receituários na outra. Os medicamentos para a “Dona Esmeralda, a Dra. Helena e o Professor Heitor, para que eles não tivessem de se deslocar”.


Cresci assim, a tratar a saúde com respeito, a velhice com humildade e a agradecer por existir e prevalecer sem de nada depender.


É o meu exemplo mais próximo e continuado de trabalho, esforço e de entrega. Desde que sou gente que acorda todos os dias às seis horas da manhã, vê o noticiário e depois de tratar a esposa com um carinho que não existe, vai trabalhar. Isto há mais de trinta anos, sem falhas e sem que nada lhe troque a rota. Toda e qualquer ideia que lhe tenho associada, presente ou passada, são de uma pessoa tão carinhosa, amiga e trabalhadora que se torna impossível de equiparar.


Tem decorados nomes de fármacos que eu nem em três vidas decoraria, e já trocou vários natais e passagens de ano, por uma imensidão de serviços permanentes de 24h. Sabem? Um dos meus maiores medos em miúda era esse mesmo. Lembro-me bem de em pequena acordar e ir a correr para o telefone para me certificar que ele “ainda lá estava”.


É bom para tanta gente… no outro dia, quando me viu mais em baixo disse-me algo que eu jamais esquecerei “Filhota, o mundo real está cheio de quedas e de pessoas mal-intencionadas, a tua avó foi diretora dos Serviços Farmacêuticos de Angola, fazes ideia do que teve de ultrapassar até aí chegar? estar por cá é uma coisa muito dura, mas com honestidade e lealdade, a razão prevalece. E eu aqui estarei. É para isso que cá estou na tua retaguarda e aqui estarei, sempre”.


E ele está para todos os que o rodeiam. E isso é fascinante, e é por isso que não lhe escrevo mais. Com medo de o desiludir, com medo de não estar à altura da enorme pessoa que é. Do bem que faz a quem o tem.


O meu pai é bem mais do que o farmacêutico de milhares de pessoas. É o amigo do coração, o confidente das piores horas, o alicerce de tantas e tantas famílias.

Vive entregue à sua profissão e eu vivo com a missão de o honrar.

Pai, obrigada, sou-te muito grata por aqui estares.

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