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  • Ana Teresa Santos

O para sempre de todos os meus dias

A cada dia que passa tenho mais a certeza de que vivo num mundo-cão, num salve-se quem puder humano. Rodeada de corações que não sentem e razões que não se explicam.


Cada dia da minha vida tenho mais a certeza de que cada momento tem de ser penado para que seja vivido. Que cada conquista tem de me esfolar os joelhos com tanta queda no decorrer do percurso e que cada passo em frente impulsiona algumas dezenas de passos atrás.


Cada vez que olho à minha volta vejo mais faltas. Faltas de carácter, faltas de saber estar, faltas de saber mais e falar menos. Falta de pessoas que sejam boas pelo prazer de o ser.


Vivo numa sociedade de músculos, que ao definir o corpo, esqueceu-se de estimular a mente.

Entre os recantos dos abdominais, ou dos bíceps fortíssimos e imbatíveis está uma cabeça que não pensa, não raciocina, não partilha.


Faz tanto tempo que não vejo ninguém bonito de dentro para fora, onde a alma transcenda o coração e me faça suspirar do bonito ser que em si se reflete.


Talvez dramatize, talvez generalize, mas a verdade é que vão completar-se dois meses que deixei de te ver. Também por isso a vida perdeu tanto o encanto, ou talvez seja por isso que o cinzento seja agora a cor predominante dos meus dias.


Vi no noticiário que o mês de Janeiro foi o mais quente dos últimos 50 anos. Quão irónico isso é? O mês mais quente foi o mais gélido para os meus dedos, para as minhas feridas, no decorrer das incalculáveis noites mal dormidas, ou naquelas em que escrever foi o meu auxílio, para não deixar de te ver, para nunca em mim morreres.

Tenho a melhor mãe que o mundo criou. Tenho e terei sempre. Porque todos os dias te vejo.


Espelhada em mim. Na minha educação, no meu mau feitio, na minha perseverança, na minha falta de paciência para hipocrisias disfarçadas ou amores dissimulados.

Estou saturada de plástico. Quero pele e osso e sorrisos e lágrimas e emoção. E tu és isso, e nunca serás nada mais que isso e nunca serás menos que tudo isso.


És a pessoa mais importante que passou e passa todos os dias na minha vida. Em atos, em visões, em tantos ensinamentos. No saber ser, para saber estar.


No ser senhora, no ser mulher. No ser transparente num mundo de águas turvas e cobertas de lodos artificiais.


Dói não te ver, mas alegra-me ainda mais o quanto te sinto. Deixaste-me a maior fortuna que podias ter deixado, e tu sabes que sim. Deixaste-me a tua alma, o teu coração e acima de tudo, o teu amor.


És a minha maior inspiração, todos os dias da minha vida.

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UM DIA NA TERRA de Ana Teresa Santos

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