UM DIA NA TERRA de Ana Teresa Santos

  • YouTube
  • Facebook ícone social
  • Instagram
  • LinkedIn ícone social
Buscar
  • Ana Teresa Santos

Odeio o Natal

Odeio assumidamente a febre que se vive por esta altura. Causa-me ansiedade e para mal dos meus pecados, faço anos agora também.


Tudo o que queria era entrar numa espécie de congelador e ficar lá até que todas estas festividades passassem. Tudo me soa a falso, a família que só se vê, forçadamente, agora, o dinheiro que gastamos- quer tenhamos ou não- para trocarmos presentes bonitos, vistosos e exuberantes, e mais do que tudo? O facto de não valorizarmos o que realmente importa, a vida, o estarmos juntos, o estarmos em paz, unidos e bem.


Facilmente dispensaria a mesa farta de dia 25 em troca de mais abraços ao longo do ano. O capitalismo destrói demasiadas coisas, mas a maior de todas será sempre o amor.


Sei que o facto de ter perdido a minha mãe, justamente neste período, agravou todo o meu pouco interesse por esta altura, era a alma da festa. Tenho (tantas!) saudades de realidades que jamais voltarão, que merda.


Foi ela que me ensinou que não importa ter 100/200 ou zero, importa termos uma manta que nos aqueça os pés em dias de frio, um filme na televisão e um bom livro na mesa de cabeceira.

Foi quem me mostrou as melhores músicas do Grande Sérgio Godinho, me despertou a minha tara pelo teatro e que sempre me disse “minha filha, aconteça o que acontecer, luta sempre pelos teus sonhos! nunca baixes a cabeça, és uma senhora e lembra-te, nunca percas a postura, a educação é tudo o que terás sempre. Vão-se os anéis, mas ficam-se os dedos”.


Mas ontem recebi uma chamada acerca do Natal, e esta deixou-me feliz, foi da minha avó, disse-me: “- Minha querida, este ano o teu presente de natal e de aniversário vão juntos, está bem?”


Respondi-lhe que não queria nada, e ela rematou dizendo que isso não era opção, que já estava a investir naquilo há meses. Preocupada com o que ouvi, porque a minha avó tem muito pouco a noção do dinheiro, levantei o tom e disse “- Por favor, avó, não faça disparates, a sua companhia será mais do que suficiente, não gaste dinheiro comigo, aliás, com ninguém!”


Do outro lado a voz sorriu e prontamente me respondeu “- Dinheiro?! Não! estou a escrever-te um conto, onde tu és o girassol… o de todos nós. Dás-nos luz, vida, alegria e energia, só não sei como termine a história, porque não quero que o teu brilho acabe!...Ora bolas, já te contei o que te vou oferecer. Vou desligar… adeus, adeus!”


Sabem? Acho que este ano finalmente vou (re)aprender a gostar deste dia,

Obrigada Querida Avó, está a ensinar-me a voltar a amar.




993 visualizações
This site was designed with the
.com
website builder. Create your website today.
Start Now