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  • Ana Teresa Santos

Vai ficar tudo bem, o tanas.

Tenho uma ideologia muito forte, não ligo absolutamente nenhuma a bens materiais, acredito que as memórias que criamos são feitas pela família, pelos amigos, pelas viagens, e de repente, perdemos tudo isso.


Quando vejo o meu querido Pai, por ser profissional de saúde, tem de ser à distância de um sorriso, quando conheci a minha mais recente sobrinha, tive de estar afastadíssima dela e senti-me extremamente incomodada por ali estar, quase como se fosse um alien.

Se passar por alguém na rua que não conheço desvio-me e fazem o mesmo comigo, o que faz com que eu me sinta uma criatura rara e pouco desejada na civilização. De repente somos estranhos que por aqui andamos e a nossa única missão está a ser a de sobrevivermos a um vírus desconhecido que uns têm, outros têm e não sabem, outros nunca terão e outros morrem se o tiverem, quão horrível e assustador isto é, quão pesaroso é acordar e lidar com isto diariamente?


E o que é que a Internet nos mostra? E o entretenimento televisivo? Vidas perfeitas e encantadoras. Frases motivacionais e meio mundo a garantir a outro meio que “VAMOS CONSEGUIR”, “VAI FICAR TUDO BEM”.


Em maio o número de desempregados ultrapassou os 100.000, e vem um qualquer “Gustavo Santos” dizer em pleno direto televisivo “que isto foi Deus que nos enviou para nos mostrar o que é o amor”. Amor? Que amor se nem um abraço posso dar? Que amor se não posso estar com a minha família mais próxima porque trabalham todos em centros hospitalares e estão cada um em suas casas até sei lá quando, a salvar (felizmente!) sei lá quantas vidas. Amor porquê, se vejo negócios de anos, de vidas, a perderem-se pelo caminho porque não aguentam mais a erosão desta crise abismal que toda a gente diz “ainda não ter atingido o pico”?. Que amor se quando damos um passo em frente temos de dar dois atrás?


O que é isso de amor se as pessoas fingem uma felicidade diária, procuram consolação constante no sol, que felizmente nos invade por sermos um país privilegiado, mas que se dissolve assim que pego no meu telemóvel e recebo pedidos de ajuda diários de artistas, que já não têm sequer o que comer? De proprietários de restaurantes que estão a declarar insolvência? Amor de quem se chefes de família estão a pôr o fim à sua vida?


Que amor quando já nem a nós nos conseguimos amar mais porque deixámos de nos sentir úteis?


O que é isso de amor se estamos apenas a sobreviver dia após dia sem sabermos qual é o dia em que todo este pesadelo vai acabar? Não me falem em amor, quando estamos todos a brincar a um faz de conta de felicidade, onde o governo nos está quase a fazer jogar à macaca, “dois passos para a frente”, agora retrocede “três passos para trás”.


O sol quando brilha, é para todos e isto só ficará efetivamente “Tudo bem” se remarmos todos na mesma direção. Deixem-se de merdas, a única oportunidade que isto nos trouxe para melhorarmos foi uma ou outra posição dos móveis de casa, mas até esses já não nos devem poder ver à frente.


O amor é algo muito bom, mas exige respeito e felicidade, não devíamos misturá-lo com pandemias, sob risco de induzir as pessoas em erro e pelo pouco que sei o povo gosta pouco de ser enganado e não se deixa levar nem por esses "Gurus" motivacionais.



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UM DIA NA TERRA de Ana Teresa Santos

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